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Resistência narradas por lideranças do campo e da cidade durante à COP 30, em Belém-Pará
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Resistência narradas por lideranças do campo e da cidade durante à COP 30, em Belém-Pará

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Rosiane Cristina Pimentel Pantoja

O presente texto tem como objetivo apresentar as principais lutas narradas pelas lideranças do campo e da cidade, que estiveram no Painel com título “A COP 30 é um mecanismo do capital para legitimar a destruição da Amazônia e do planeta”. A proposta do evento foi dar visibilidade das lutas dessas lideranças, que vivem ameaças pelo grande capital em seus territórios, além de apoiar, ampliar e prestar solidariedade entre os povos e a classe trabalhadora. O evento foi realizado paralelo à COP 30 com relatos fortes das lideranças, que trouxeram temas sobre: apagamento, invisibilidade, perseguição, criminalização e até a morte de lideranças, diante dos conflitos em seus territórios. A atividade foi organizada pela Central Sindical e Popular Conlutas e realizada no Instituto de Ciência da Educação (ICED), na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, Pará.

1. Contexto do painel

A construção de um painel que aglutinasse a luta do campo e da cidade, foi iniciado durante a Roda de Conversa intitulada “Juventude e movimentos sociais diante da crise climática e as falsas alternativas da COP 30”, realizado no dia 30 de junho de 2025, no auditório do ICSA/UFPA, organizado pela CSP (Central Sindical e Popular) Conlutas, o grupo Revolução Climática, o Coletivo Rebeldia e o Grupo de Pesquisa Hodós vinculado ao ICED/UFPA e ao CNPq. 

Nesse evento os palestrantes relataram a falta de espaço durante a COP 30 e apresentaram a necessidade de ter um espaço durante a COP 30 (Conferência das Partes), para refletir sobre suas lutas e trajetórias no território e a defesa do meio ambiente. Percebiam que o evento oficial sobre as emergências climática, limitaria a participação dos protagonistas das lutas sociais, que tem se confrontado com aqueles que eles consideram os verdadeiros responsáveis pela destruição do meio ambiente e dos conflitos socais.  

Por isso, o painel foi construído com as diversas lideranças com um caráter narrar suas lutas, a resistência e denunciar as diversas violências e violações de direitos em seus territórios, e apontar as contradições da limitação do acesso aos espaços oficiais durante o evento da COP 30.

A COP 30 ocorreu entre os dias 10 a 21 de novembro na cidade de Belém, com a temática sobre as mudanças climáticas e deveria avançar sobre as metas para reduzir os gases de efeitos estufa, promover a transição energética dos combustíveis fósseis e limitar o aumento das temperaturas para 1,5ºC (Instituto LACLIMA, 2026). A expectativa era dar um passo para além do Acordo de Paris, em 2015, aumentando as metas do NDCs -Contribuições Nacionalmente Determinadas (COP30 Brasil, 2025).

No entanto, diversos movimentos sociais apontavam, antes mesmo de iniciar a COP30, as contradições do evento. Destacava-se a redução de credenciais para uma participação efetiva do movimento quilombola e de povos originários nas decisões sobre as mudanças climáticas (SETA, 2025). A maior participação nos espaços de deliberação era daqueles que não estão no território e seu que tem interesse bem controversos sobre a transição enérgicas, como os lobistas do petróleo que tiveram uma grande quantidade de credenciais, mais de 1.600, para acessarem a Blue Zone, espaço oficial das negociações (INESC, 2025).

Uma centralidade de denúncias dos movimentos durante a COP 30, foi contra a exploração do petróleo da margem equatorial na foz do Amazonas, além do Marco temporal, que irá impedir a demarcação nos territórios indígenas. Mas também conta a construção de estrada que passa por cima de território quilombola do Abacatal, em Ananindeua e a construção destruição do Pedral do Lourenço para a construção da rodovia Araguaia Tocantins.

A mesa representada por camponeses, indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos, mães de vítima de violência policial e operária, foi composta por: Osmarino Amâncio, líder seringueiro que lutou com Chico Mendes nos empates do Acre; Raquel Tremembé, liderança indígena do Maranhão; Erasmo Theófilo, liderança camponesa de Anapu; Rosa Gregória, quebradeira de coco do Maranhão; Claudio Castro, liderança ribeirinha de Moju; Ricardo Terra, Movimento Nacional de Luta (MNL); Geterino, liderança camponês de Pernanbuco; Sueide Pena, Movimento de mães vítimas de violência policial; Dany Brito; coordenadora do sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras da construção civil de Belém.

As falas das lideranças expressaram as lutas dos povos originários, comunidades tradicionais, da luta por condições de trabalho digna e pelo direito a vida. Denunciaram processos históricos e contemporâneos de violência, exploração e violação de direitos na Amazônia. Ao mesmo tempo, buscou-se evidenciar as formas de resistência construídas com a auto-organização dos grupos sociais.

2. O painel: Resistência e auto-organização para lutar contra o capital

O principal objetivo do painel era dar visibilidade as lutas vivenciadas pelas lideranças em seus territórios do campo e da cidade. Estas lutas estão embrincadas com os processos de expropriação, violência, destruição do meio ambiente, exploração e opressão, que afetam a todos. Portanto, evidenciou-se no debate evidenciou, entre os sujeitos diversos em locais diversos, que suas trajetórias são marcadas pela lógica expansionista do capital, que utiliza da repressão e violência para dominar.

2.1. A luta seringueira e camponesa

Osmarino Amâncio é um histórico líder seringueiro do Acre e lutou ao lado de Chico Mendes, falou dos processos das lutas do Acre, durante os empates, contra a proposta de destruição da floresta para expansão do capital. As ameaças e assassinatos de lideranças que tentam impedir a destruição da floresta não é de hoje. Como foi na época de Chico Mendes, assassinado mesmo com proteção policial do Estado. Por isso, Osmarino afirma que não podemos contar somente com a proteção do estado, é necessário a auto-organização das lideranças para se proteger. Reafirmou a atualidade da defesa da floresta e dos direitos dos trabalhadores, mas com a auto-organização devido o contexto marcado por violência contra as lideranças.

O camponês Erasmo Theófilo, liderança camponesa em Anapu (PA), relatou os enfrentamentos à grilagem de terras e às ameaças de morte impostas por pistoleiros a serviço do agronegócio. Sua fala expôs a permanência de práticas violentas no campo amazônico e a conivência do Estado com a expansão do latifúndio e grilagem de terras. Também falou da dificuldade de que para proteger sua vida precisa estar longe de seu território e até de sua família.

Do estado de Pernanbuco, esteve presente Geterino, liderança camponesa que contribuiu com a análise da luta pela terra e pela reforma agrária, ressaltando que a violência do latifúndio não é um fenômeno isolado da Amazônia, mas parte de uma estrutura nacional de concentração fundiária.

Ricardo Terra do Movimento Nacional de Luta no Campo (MNL), que é um movimento em defesa da reforma agrária, falou sobre as contradições de o Estado destinar terra para o agronegócio desmatar as florestas, enquanto para os pequenos produtores é negado o acesso à terra para produzir e sustentar seus filhos.

2.2 Povos originários, comunidades ribeirinhas e tradicionais

Os povos originários contaram com a representação de Raquel Tremembé, indígena do Maranhão, que falou sobre a ancestralidade dos povos originários, ressaltando que a aprovação do Marco Temporal acarretará destruição dos territórios indígenas, isto tudo para beneficiar e avançar o capital sobre as terras indígenas. Destacou que mesmo durante a COP 30 os povos originários foram deixados fora do debate central sobre as mudanças climáticas, o que demonstra a invisibilidade destes povos pelo poder público. 

Representando as comunidades ribeirinhas do Pará, Claudio, do município de Moju, relatou os conflitos em torno da exploração ilegal do seixo, no leito do rio do médio Moju, no qual a comunidade se organizou para denunciar. Porém, após as denúncias descobriu que suas ocorrências relatadas as autoridades para serem investigadas as irregularidades, não foram registradas no município, somente quando conseguiu vir a Belém que conseguiu registrar. Desde então, foi ameaçado por pistoleiros na região e não pode ir em seu território, por medo. 

O painel também contou com a participação de Rosa Gregória, Quebradeira de Coco Babaçu, sua intervenção destacou a resistência das mulheres que defendem o uso coletivo dos babaçuais frente ao avanço do agronegócio. Destaca-se que, há poucos dias havíamos recebido a triste notícia do assassinato de duas quebradeiras de coco no sudeste do Pará, o que demonstra que a luta independe do estado que estão estas lideranças.

2.3 Lutas operárias e das cidades

As lutas urbanas e operárias também foram representadas no debate por Sueidy Marília Ferreira, integrante do movimento de mães que lutam contra a violência policial no Pará, trouxe à tona a dimensão urbana da violência de Estado, marcada pela violência contra a juventude pobre e negra, em especial seu filho Davi, que foi assassinado por policiais, no retorno para sua casa.

Dany Brito, coordenadora do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém, falou a importante greve dos operários da construção civil, durante a COP 30. Enquanto os trabalhadores construíam os prédios para receber a COP, os patrões apresentaram uma proposta de reajuste salarial de R$5,00, mesmo diante dos lucros absurdos e da especulação imobiliária que ficará após a COP 30. 

3. A resistência como necessidade histórica

Os relatos e análises apresentados no painel evidenciam que a resistência dos trabalhadores e dos povos da Amazônia não é uma escolha voluntária, mas uma necessidade histórica diante da intensificação das ofensivas do capital. A violência, a criminalização das lutas, a grilagem de terras, o avanço do agronegócio, da mineração e dos grandes projetos de infraestrutura constituem um mesmo processo de invisibilidade, exclusão, apagamento e desterritorialização, para assim melhor explorar os recursos naturais.

Nesse sentido, a resistência não deve ser apenas uma defesa, mas deve ser construída pela auto-organização, de forma ativa nos territórios. As experiências compartilhadas no painel revelam que mesmo em lugares diversos as lideranças relatam as intervenções do capital no território e o papel que o Estado cumpre ao não proteger a vida dos trabalhadores. Portanto, se auto organizar é uma necessidade desses povos para resistir frente as lutas que realizam.

4. Considerações

As narrativas apresentadas pelas lideranças, durante o painel indicam que, por trás do discurso oficial da COP 30, não há uma proposta de superação da crise climática que leve em consideração os povos originários, populações tradicionais e nem mesmo a classe trabalhadora do campo e da cidade.

Além, das falas convergirem sobre as violências e violações de direitos no campo e cidade, que vivem as lideranças, e sem a devida proteção do Estado. As falas refletem, o processo histórico de expansão do capitalismo na Amazônia “marcado pela intensificação da exploração do trabalho, pela apropriação dos recursos naturais e pela expropriação de terras tradicionalmente ocupadas” (COSTA, et al, 2024). 

Para responder as violações de direitos e dar respostas as mudanças climáticas, as lideranças entendem a necessidade de unificar as lutas, não se limitando as resistências especificas de cada luta, mais criando uma unidade de classe e povos oprimidos pelo capital, como elucidou Porto-Gonçalves (2006): 

Os limites do localismo se mostram, aqui, evidentes, com a compreensão que não se pode prescindir do lugar e da diversidade. O divide et impera romano aí está a nos desafiar na busca da afirmação da diferença onde cada qual se reinvente reinventando o conjunto das relações que faz de cada qual ser o que é nesse sistema mundo moderno-colonial marcado pela injustiça, opressão, insegurança e devastação nova configuração social, marcada pelo capitalismo, é imposta através de técnicas e dispositivos sociais e políticos que fomentam o desenvolvimento, como a privatização de terras e a apropriação de recursos de uso comum e tem gerado violentos conflitos e a expropriação de povos tradicionais de seus territórios tradicionalmente ocupados.

Conforme o autor, há uma estratégia orquestrada pelo capital para manter os grupos isolados para melhor explorar, portanto, neste sentido a importância dessa mesa para superar o afastamento e as individualidades e construir a unidade orgânica dos setores explorados e oprimidos pelo modelo expansionista opressor do capitalismo.

Neste sentido, a proposta deste painel, ao reuniu as diversas experiências, permitiu observar que as lutas destas pessoas estão interligadas pela lógica de exploração capitalista, devendo também estar interligadas as lutas para sua superação. Torna-se necessário, um chamado à unidade dessas lutas na Amazônia e em todo o país, para enfrentar os impactos das mudanças climáticas, por meio de uma efetiva transformação da matriz produtiva, bem como, por fim às violências praticadas contra as lideranças que defendem o meio ambiente e os direitos dos povos e da classe trabalhadora.

REFERÊNCIAS: 

COP30 Brasil. COP30 aprova o Pacote Belém. Publicado em 23 nov. 2025. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/cop30-aprova-o-pacote-belem. Acesso em: 28 jan. 2026.

COSTA, Solange Maria Gayoso da; HAZEU, Marcel Theodoor; COSTA, Larissa Marinho da. Conflitos e expropriação de territórios tradicionais na Amazônia brasileira. Revista Argumentum, Vitória (ES). Vitória, v. 16, n. 3, p. 107-121, set./dez. 2024. Disponível em: . Acesso em: 28 jan. 2026.

INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos. (2025, 20 novembro). Sem participação, não há clima: a COP 30 precisa ouvir as ruas. INESC. https://inesc.org.br/sem-participacao-nao-ha-clima-a-cop-30-precisa-ouvir-as-ruas/

Instituto LACLIMA. Observatório do Acordo de Paris. Especial COP 30. 23 de novembro de 2025. Disponível em: https://www.laclima.org/publicacoes/resum%C3%A3o-da-cop-30. Acessado em: 20/01/2026.

PORTO-GONÇALVES, C.W. De saberes e de territórios: diversidade e emancipação a partir da experiência latino-americana. [S.l.]: [s.n.], 2006. p. 37-52. Disponível em: https://posgeo.uff.br/wp-content/uploads/sites/256/2020/06/texto_carlos_walter.pdf. Acesso em: 2 jan. 2023.

SETA, Isabel. Quilombolas denunciam exclusão do espaço de decisões na COP30. Agência Pública, 6 nov. 2025. Disponível em: https://apublica.org/2025/11/quilombolas-denunciam-exclusao-do-espaco-das-decisoes-cop30/. Acesso em: 28 jan. 2026.

 

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