Copa do Apartheid? Torneio nos EUA é reflexo das políticas racistas e imperialistas de Trump
A construção de uma nova sociedade, sem exploração, é o caminho para devolver ao futebol sua essência lúdica e política
Os grandes eventos esportivos costumam propagandear que existem pela celebração da humanidade, respeito mútuo e amizade entre nações. Mas o que se vê nos Estados Unidos, hoje, tem sido chamado de a “Copa do Mundo do Apartheid”.
Não é de hoje que o torneio de futebol organizado pela FIFA está completamente subserviente ao capital. Há décadas, patrocinadores lucram bilhões com a competição, que também já protagonizou inúmeros casos de corrupção e graves violações trabalhistas.
No entanto, esta é a primeira vez que o país sede está em guerra contra uma outra nação que também disputará o campeonato. Os EUA que bombardeiam o Irã - em conjunto com Israel - poderá enfrentar seu alvo de guerra também nos gramados.
A participação da seleção iraniana tornou-se o maior exemplo das implicações geopolíticas que vão marcar esta Copa. Classificada para a competição desde 2025, a equipe do Irã viu tudo mudar com o início das agressões sionistas e imperialistas.
Jogadores receberam os vistos apenas na última hora e 15 membros da comissão técnica simplesmente tiveram sua entrada nos EUA negada. Além disso, o Irã também foi obrigado a mudar sua sede dos EUA para o México.
Os jogadores poderão pisar em solo americano apenas horas antes dos jogos e deverão sair assim que a partida terminar. Este é um exemplo de segregação até então inédito em mundiais.
Os EUA também revogaram indiscriminadamente toda cota de ingressos destinada aos torcedores do Irã. Todos aqueles que compraram as entradas, bem como voos e acomodações não serão reembolsados.
Políticas racistas
A política de Donald Trump de perseguição a imigrantes de países pobres, que levou os EUA à beira de uma convulsão social, com milhares nas ruas em protesto contra a polícia do ICE, também está sendo aplicada à risca.
Jogadores das seleções de Senegal e Uzbequistão sofreram uma revista humilhante ainda na pista do aeroporto. Muitos são atletas que jogam em grandes times da Europa, mas para os EUA eles são apenas árabes e pretos.
Os vídeos que circulam na internet remetem ao tratamento dado a traficantes que tentam entrar com droga no país, ou qualquer suspeito de ligação com o terrorismo. Aliás, foi com essa justificativa que os EUA impediram a participação do melhor árbitro africano da atualidade.
Omar Artan, da Somália, possuía um visto válido, mas foi barrado pelo serviço de imigração norte-americano, após 11hs de entrevista. A alegação dada pelas autoridades é de “suspeita de envolvimento com o terrorismo”.
Fato é que desde janeiro, Trump tem discursado de forma xenofóbica contra imigrantes somalis e há medidas em curso para facilitar a deportação de refugiados daquele país há meses.
Membros da seleção do Iraque também relataram forte estresse em aeroportos americanos. Um fotógrafo oficial da delegação teve a entrada negada em Chicago, e o atacante Aymen Hussein ficou detido por horas em uma sala de segurança antes de ser liberado para entrar.
Copa reflete o mundo
Em um mundo marcado pelo genocídio que Israel continua a cometer na Palestina, além das agressões imperialistas de Trump e da invasão Russa à Ucrânia, não é de se estranhar que a Copa do Mundo reflita este cenário de catástrofe geopolítica, que alcança também com força a América Latina.
O México, que também sedia o torneio ao lado de EUA e Canadá, vive uma das maiores mobilizações sociais dos últimos anos.
Professores em greve ocupam as ruas do país exigindo melhores salários, aposentadorias dignas e mais investimentos na educação pública. O movimento denuncia justamente a prioridade dada a grandes obras de infraestrutura e aos gastos relacionados ao evento esportivo, enquanto áreas sociais seguem sofrendo cortes e precarização.
Às vésperas da abertura da Copa, o governo mexicano tentou negociar o fim das manifestações para evitar protestos durante a cerimônia inaugural, mas sem sucesso.
As organizações de professores prometem manter as mobilizações, evidenciando que, por trás do espetáculo vendido pela FIFA, persistem profundas desigualdades sociais.
Ainda que o futebol tenha nascido e se popularizado no seio da classe trabalhadora mundial, enquanto ele estiver submisso aos interesses dos capitalistas, jamais poderemos aproveitá-lo em sua totalidade.
Por isso a Copa, apenas como evento mercadológico, deixa tanto a desejar e chega até mesmo a ferir direitos básicos. A construção de uma nova sociedade, sem exploração, é o caminho para devolver ao futebol sua essência lúdica e política.

