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O Congo sangra e o imperialismo e suas transnacionais lucram

O Congo sangra e o imperialismo e suas transnacionais lucram

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César Neto

Introdução

Nas últimas semanas vimos imagens de jogadores da seleção de futebol da Rep. Dem. do Congo fazendo dois sinais simultâneos. Uma mão na boca e a outra com os dedos simulando um revólver contra suas cabeças. Essa imagem é símbolo de décadas de violência contra a população congolesa. Na atualidade expressa a violência praticada por mercenários organizados desde o país vizinho Ruanda e com o apoio dos EEUU, França, Bélgica e Inglaterra, que com essas ações praticam limpeza étnica e dão suporte a rede de contrabandistas de minerais. Grandes manifestações aconteceram nas ultimas semanas no Congo e no exterior.

Em 1885 com a partilha da África, o imperialismo belga ocupou uma área 75 vezes maior que o seu território. Durante os 30 anos iniciais da ocupação, matou milhares de elefantes para extrair o marfim e depois explorou a borracha para produção de pneus maciços para a nascente indústria automobilística. Para a retirada do látex impôs violentos castigos aos trabalhadores e seus filhos, entre as barbaridades estava cortar pés e mãos de adultos e crianças[1].

O Rei Leopoldo II da Bélgica, uma mistura de Adolfo Hitler com Benjamin Netanyahu, morreu em 1909 e a Bélgica segui dominando o país até a independência de 1960.  Nesse período o Congo era o terceiro país mais industrializado do continente e sua classe trabalhadora travou lutas heroicas que impuseram a independência em 1960. Foi uma independência pela metade na medida que foi uma independência apenas no campo político. O principal líder, Patrice Lumumba, foi assassinado pelos próprios belgas e dessa maneira foi pavimentada a via para a ditadura sanguinária de Mobutu Sese Seko (1965 a 1997) que derrotou a luta de resistência dos trabalhadores.

Em 1997 caiu o governo Mobutu e assumiu Laurent Kabila com o apoio de Paul Kagamé, de Ruanda. Terá sido mesmo um apoio? Afinal, esse apoio significou que o Comandante do Exército Congolês fosse um ruandês indicado por Kagame. Laurent Kabila governou de 1997 a 2001, quando foi assassinado. Como numa dinastia assumiu seu filho Joseph Kabila que governou até 2019. Foram 24 anos sucessivos de governos bonapartista da família Kabila.

Entre 1998 e 2003 um conflito de gigantescas proporções envolvendo oito países africanos e 25 grupos armados dizimou aproximadamente entre 5 e 6 milhões de Congoleses. Esse conflito é considerado como mais mortífero desde a II Guerra Mundial.

Como explicar esses sucessivos governos bonapartistas e genocidas

Os massacres contra a população congolesa começaram com o Rei Leopoldo II, da Bélgica a serviço da nascente indústria automobilística (Ford, Peugeot, etc) e das indústrias de pneumáticos como Dunlop, Good Year, etc., que precisavam do látex natural existente no Congo.

O massacre executado por Leopoldo II se transformou em um escândalo internacional. Para melhorar sua imagem favoreceu a dois irmãos ingleses, que com trabalho escravo e limpeza étnica, constituíram a Lever’s Brothers, e estes começaram um império que hoje é conhecido como Unilever, ou Unikiller[2].

As riquezas minerais e naturais sempre foram motivo de cobiça por parte dos distintos imperialismos. Por exemplo, para a construção da bomba atômica, os EEUU retiraram um milhão e duzentas mil toneladas de uranio da mina de Shinkolobwe, sem medidas protetivas contra a radiação e hoje 80 anos depois ainda nascem crianças com mal formações congênitas.

A região leste do Congo, conformado pelos estado de Kivu Sul, Ituri e Kivu Norte, faz fronteira com Ruanda, Burundi e Uganda é riquíssima em minerais como ouro, coltán, cobalto cassiterita e uranio.

Desde pelo menos os anos noventa Ruanda se transformou em grande exportador de produtos agrícolas e minerais. É um país muito pequeno, o menor da África, 88 vezes menor que o Congo. Em uma área tão pequena não tem como ser produtor e grande exportador de vários produtos naturais e minerais. Na verdade, boa parte é contrabandeada desde o Congo e para tal há toda uma rede de contrabandistas e milicianos.

Em Ruanda e Uganda (país vizinho) o ouro contrabandeado do Congo é refinado por empresas belgas da família de Tony Goetz. A família é acusada de compra e venda ilegal de ouro, financiamento de milicias e lavagem de dinheiro. Tony Goetz faleceu em 2018 e seu império segue sendo dirigido por seus filhos. Um dos filhos, Sylvain Goetz, condenado pela justiça belga por lavagem de dinheiro e tráfico de ouro, é proprietário da empresa refinação de ouro, North Star, localizada entre a Baia do Guajajara e a Av. Artur Bernardes, em Belém do Pará/Brasil[3]. Os Gaetz além de lavarem o dinheiro do ouro em Dubai, são também fornecedores da “Tesla, Amazon, Dell, Johnson & Johnson e da HP, e até cafeteiras da Starbucks”[4].

O envolvimento dessas empresas joga por terra toda a discussão da imprensa burguesa que trata os conflitos no Congo como consequencia de conflitos étnicos entre hutus e tutsis e outras etnias.

Ruanda, o estado gendarme e espelho de Israel

Paul Kagame, dirige Ruanda desde 1994. Primeiro militarmente e a partir de 2000 como presidente eleito. Kagame é tutsi, sua etnia supostamente foi massacrada pelos Hutus em 1994 no conhecido massacre de Ruanda quando 800 mil pessoas foram assassinadas em pouco mais de uma semana. Mesmo sendo membro da minoria massacrada se impôs militarmente aos Hutus. Paul Kagame é também responsabilizado pela I e II Guerra do Congo. Internamente o país é uma ditadura sanguinária.  Patrick Karegeya, ex-chefe de inteligência de Ruanda, se desentendeu com o Paul Kagame e foi viver na África do Sul onde foi assassinado. A declaração de Kagame aos jornais sobre o assassinato se explica por si só: "Quem trair o país pagará o preço, garanto-vos. Qualquer pessoa ainda viva que possa estar a conspirar contra o Ruanda, seja quem for, pagará o preço. Quem quer que seja, é uma questão de tempo"[5]

Ruanda hoje, tem o mesmo perfil de Israel na medida que atua como um Estado gendarme na região. Em vários conflitos as tropas de Ruanda são enviadas para intervir. Diferente de outros exércitos, o ruandês é altamente profissionalizado, com muita ajuda financeira da Belgica, Inglaterra, França e EEUU. Quando os interesses Total Energies e ExxonMobil, para exploração do gás de Cabo Delgado (Moçambique) estiveram em risco, foram as tropas de Ruanda que derrotaram os grupos islâmicos. Se o exército nacional, como no caso moçambicano, não tem forças suficientes, Ruanda aluga seu exército de profissionais.

No caso congolês, os interesses de Ruanda estão relacionados com controle territorial das áreas auríferas, exploração e contrabando. Em suas ações consta inúmeros casos de limpeza terrirorial expulsando a população local. Nos últimos dias, por exemplo, 135.000 pessoas foram expulsas de Masisi rumo a capital Goma. Antes da expulsão, praticaram sequestros, assassinatos e estupros em massa. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, são pelo menos 60 casos ao dia.

No Congo toda essa violência é praticada por uma milicia muito bem armada, inclusive com aviões, bombas e drones, denominada M23, e que desde a ONU até o mais simples habitante sabe que são financiados por Ruanda, e este país é financiado pelo Reino Unido, França, Belgica e Estados Unidos. Tudo esse financiamento é para garantir os interesses das transnacionais que atuam no Congo ou que necessitam de suas matérias primas.

Além do M23 atuam na região outros 120 grupos armados segundo estudos de diversos organismos internacionais.

O capitalismo mata. Morte ao capitalismo

A República Democrática do Congo tem sua história associada a sucessivos genocídios. Todos eles praticados por nações imperialistas a serviços de suas empresas transnacionais.

O Rei Leopoldo da Bélgica é acusado pelo assassinato de alguns milhões de pessoas. Há dados que variam entre 1 e 10 milhões de congoleses[6]. Essa matança estava relacionada com a limpeza étnica e escravização de homens e mulheres para a extração da borracha que seria vendida para a Dunlop, Firestone, GoodYear, entre outras. Essas fabricantes de pneus eram fornecedores das empresas automobilísticas Peugeot, Ford, Daimler Benz, etc.

Ao final da II Guerra Mundial os EEUU lançaram o projeto Manhatan para produção da bomba atômica. A matéria prima essencial era o excelente uranio da mina de Shinkolobwe, propriedade da empresa belga Union Minière de Haut Katanga. A exploração, transporte e envio aos EEUU rendeu lucros astronômicos para as empresas: Bechtel, DuPont, Raytheon, Eastman Kodak, Union Carbide,  Pan American Airways, Caltex (atual ChevronTexaco), etc. As mortes a população congolesa vieram ao longo dos anos pela contaminação com material radioativo. As poucas fotos da época mostram inspetores norteamericanos todos com material de proteção e os trabalhadores congoleses sem proteção. O uranio foi transportado em vagões camuflados, sem proteção e no longo trajeto foi contaminando as populações.[7]

Durante a ditadura de Mobutu foi aplicada a política imposta pelo Banco Mundial, denominada Strategy for African Mining, que impôs a privatização da estatal Gecamines e a total desregulamentação da mineração. Dessa época surgiram gigantescas empresas como Rio Tinto, Anglo American, Glencore, entre outras que passaram a controlar toda a extração industrial. Ao mesmo, a mineração semi artesanal ganhou um grande impulso e com ela o comercio, ilegal, contrabando e o surgimento das milicias. Um relatório de 2014 da ONU afirma que: “República Democrática do Congo (RDC), segundo maior produtor mundial de diamantes e maior exportador mundial de minério de cobalto, é o país mais afetado pela exploração ilegal de seus recursos naturais, notadamente a “exploração mineral ilegal e exportações” e que, mais gravemente, o dinheiro gerado por esse tráfico financia grupos armados”.

Nessa sequencia há as empresas que exploram a extração de recursos minerais ou naturais, empresas que atuam na pré industrialização como a família Gaetz , proprietário da African Gold Refinary (Uganda) capaz de refinar mais de 220 toneladas de ouro por ano, da Refinaria Aldango (Ruanda) que pode processar até 75 tonelada ano e uma empresa em Dubai, PGR Gold Trading que compra todo esse ouro.  Além dessas empresas os Gaetz como dissemos acima instalaram uma refinadora de ouro no Estado do Pará (Brasil) e coincidentemente cresce a participação de grupos milicianos no país.

Além do ouro, o coltan da região passa pelo mesmo processo e será utilizado por empresas como Tesla, Dell, Microsoft, Amazon, HP e até mesmo Starbucks.

Como se vê, o capitalismo mata. É preciso lutar pelo fim do capitalismo. Mas no plano imediato necessitamos denunciar o genocídio recorrente no Congo e em especial, neste momento, estar ao lado das grandes manifestações que ocorrem na Bélgica e na França contra as ações do M23, contra a ingerência do regime de Paul Kagamé (Ruanda) e contra o financiamento das milicias e exercito ruandês por parte das transnacionais e dos países imperialistas.

 

 

[1] O genocídio no Congo belga e a luta pela reparação - https://litci.org/pt/2018/11/28/o-genocidio-no-congo-belga-e-a-luta-pela-reparacao/

[2] UNILEVER Boycott - http://www.eatnoshit.de/unilever.html

[3] O CAMINHO DO OURO - Nova refinaria de ouro da Amazônia tem como sócio condenado por lavagem de dinheiro na Bélgica - https://www.intercept.com.br/2022/02/16/nova-refinaria-de-ouro-da-amazonia-tem-como-socio-condenado-por-lavagem-de-dinheiro-na-belgica/

[4] idem

[5] Rwanda’s Khashoggi: who killed the exiled spy chief? - https://www.theguardian.com/news/2019/jan/15/rwanda-who-killed-patrick-karegeya-exiled-spy-chief

[6] King Leopold's legacy of DR Congo violence - http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/3516965.stm

[7] Williams, Susan. Spies in the Congo. The Race for the Ore that Built the Atomic Bomb.( London: Hurst & Company, 2018), pag. 266

 

*César Neto - Integrante do Setorial Internacional da CSP-Conlutas

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